Inovação! E inovação “à moda Chinesa”.

Recentemente estive em Beijing para participar de uma conferência internacional sobre Inovação e apresentar um artigo sobre ecossistemas de empreendedorismo-intensivo em conhecimento. A conferência foi realizada na Escola de Economia e Negócios da Universidade de Tsinghua, considerada a MIT Chinesa e posicionada em 22º lugar no Ranking das melhores Universidades do mundo.

A conferência foi organizada pela “Industrial and Corporate Change”, uma revista internacional com foco em economia e inovação cujo corpo editorial é formado por lideranças do pensamento em das melhores universidades do mundo.  O corpo editorial é formado pelo que poderíamos chamar de “discípulos” de Joseph Schumpeter (“O Profeta da Inovação”), economista austríaco que compreendeu, há 100 anos atrás, a papel fundamental da inovação como propulsor do desenvolvimento econômico e previu a dinâmica e ritmo do desenvolvimento capitalista que estamos vivendo hoje.

Portanto, o principal interesse desse grupo de acadêmicos é compreender como economia e tecnologia interagem para produzir mudança na dinâmica das empresas, setores e quais as implicações desse processo para a geração de riqueza nos diferentes países visando, eventualmente, contribuir para estratégias e políticas que fomentem a inovação.

O mundo é repleto de evidências de que o diagnóstico e previsão de Schumpeter estavam corretos, o que tem justificado o esforço de diferentes países em promover políticas que visam a inovação. Se, de um lado, a inovação explica a posição de liderança de países desenvolvidos (EUA, Alemanha, Inglaterra, Finlândia, etc), por outro também explica a ascensão de outros como, por exemplo, Japão, Coréia do Sul, Singapura e Israel. O caso mais recente e emblemático das últimas duas décadas é o Chinês.

Inovação à moda Chinesa – Breve Histórico

Embora a China tenha um histórico milenar de inovações que remontam a invenção do papel, da seda, pólvora, fogos de artifício, entre o outros, a evolução recente do século do final do século XX e início do século XXI tem sido assistida pelo mundo. Em resumo, a partir de 1979, o país iniciou um processo de abertura para investimento externo, liberalização (ou “descoletivização”) da economia interna dando lugar ao empreendedorismo e abertura de novos negócios e modernização da economia com foco em quatros setores: agricultura, indústria, defesa e ciência e tecnologia. Em 2001, a China ingressa como membro na Organização Mundial do Comércio (OMC) o que intensifica a abertura e internacionalização do país. Desde então, o país tem obtido um crescimento quase exponencial em diferentes setores da sociedade. Os incentivos econômicos de uma competição por baixo custo orientado a exportações, levaram a um processo investimento estrangeiro direto em diferentes setores industriais, em infraestrutura, e migração do campo para a cidade, ou seja, uma verdadeira “sino-revolução industrial” 240 anos após a primeira (ocorrida na Inglaterra), fizeram com que a China se tornasse a “fábrica do mundo”.

A “mágica” econômica promovida por uma política agressiva de desvalorização cambial, se consolidou no espantoso crescimento do PIB e “catching up” ou convergência econômica que podemos observar no gráfico dinâmico que viralizou recentemente.

No entanto, a convergência econômica é, antes de tudo, resultado de uma convergência tecnológica uma vez que os fluxos industriais trouxeram consigo fluxos de conhecimentos e capacidades tecnológicas que não existiam no pais anteriormente. É justamente essa diversidade conhecimentos que permitem uma série de “novas combinações” de hardware, software, “bioware” e serviços com aplicações de valor para o mercado que tem alçado o país para figurar entre as nações mais inovadoras do mundo.

Essa evolução pode ser observada também nos relatórios do Global Innovation Index desde 2012 (Figura 1) em que a China claramente salta do grupo de países de renda média caracterizado por pouco inovação e pouco desenvolvimento econômico e começa a integrar o grupo de países desenvolvidos.

Figura. 1. Global Innovation Index vs GDP Per Capita in PPP$ (bubbles sized by population)

FONTE: construído a partir de Dutta et al (2012, 2018)

Qual o limite para a inovação?

Quando países se aproximam do ponto de convergência tecnológica e econômica de países desenvolvidos, o único passo possível para a evolução está no avanço da fronteira científica. E essa foi a tônica das apresentações dos pesquisadores Chineses presentes na Conferência em Beijing. Poderá a China se tornar a principal potência em Inovação?

O recente desenvolvimento chinês seguiu uma conhecida e documentada estratégia “da Imitação para a Inovação” semelhante ao processo Japonês e Sul Coreano em décadas anteriores. À medida que esse modelo se esgota, os países precisam buscar a consolidação não apenas de suas empresas por meio de produtos de maior qualidade e marca, mas também a liderança na resolução de problemas complexos que estão na fronteira do conhecimento. Isso se dá através de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), em especial, pesquisa básica.

Ao analisarmos os gastos nominais em Pesquisa e Desenvolvimento, a China vem se aproximando a passos largos dos Estados Unidos (Figura 2). No entanto, o volume de recursos não nos informa sobre a qualidade ou prioridades dessa alocação. A figura 3 apresenta essa orientação. A maior parte dos gastos em P&D na China se dão no nível de pesquisa experimental e aplicado (aquele voltado a resolução de problemas de produção ou engenharia) que não lidam especificamente com os desafios da fronteira do conhecimento.

Figura 2. Gastos Nominais em P&D

Fonte: OECD – https://data.oecd.org/rd/gross-domestic-spending-on-r-d.htm#indicator-chart

Figura 3. Gastos por tipo de pesquisa

Fonte: OECD – https://data.oecd.org/rd/gross-domestic-spending-on-r-d.htm#indicator-chart

A influência científica do país pode ser medida pela produção e publicação de pesquisas bem como patentes e suas o número de citações dessas produções no âmbito global. Embora o número de publicações tenha aumentado significativamente, a qualidade das publicações assim como das patentes publicadas é muitas vezes questionada. Argumenta-se que, embora a China esteja posicionada como segundo lugar no número de publicações, a média de citações por documento ainda é baixo o denota uma relativa pouca influência na comunidade científica internacional se comparada com os principais líderes como Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e França. No entanto, não será surpresa ver essa condição melhorar nos próximos anos.

Figura 4. Publications

Fonte: https://www.scimagojr.com/countryrank.php?order=it&ord=desc

Cabe ressaltar, no entanto, que o tipo de P&D Chinês é plenamente coerente com uma estratégia bem-sucedida de aquisição de conhecimento externo e catching up realizados até aqui. Nesse sentido, apesar do otimismo e confiança pelo desempenho recente, os Chineses tem plena consciência de que a liderança científica que vem através do investimento em “pesquisa básica” (na fronteira do conhecimento) é uma necessidade tanto para sustentar o crescimento quanto para colocar o país em uma posição de liderança competitiva. Essa consciência é o primeiro passo para que o país alcance esse objetivo.

China hoje, futuro e lições para o Brasil

A China tem como objetivo se tornar uma sociedade orientada para a inovação até 2020 e uma superpotência em ciência e tecnologia até 2050.  Para tanto, o país se vale de uma série de planos para realizar a transição de uma econômica orientada a exportação de produtos manufatureiros para aumentar os investimentos em educação nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharias e Matemáticas (da sigla STEM em inglês) bem como nas estruturas de suporte e habitats como Parques Tecnológicos e centros de inovação de alta tecnologia como a TusPark (Tsinghua University Science Park).

Algumas coisas saltam aos olhos e que dão um pouco da sensação da evolução do país com um todo.

  • Infraestrutura e transporte da cidade já podem ser considerados de uma país desenvolvido. Apesar do trânsito um tanto quanto confuso, existem amplas rodovias, limpeza das calçadas e ótimo transporte público como linhas de metro que alcançam toda a cidade são simples para utilizar mesmo para estrangeiros. A estrutura de ferrovias para transporte de passageiros expandiu expressivamente nos últimos 20. A capacitação técnica para transporte ferroviário resultaram em um ambicioso projeto de construção de um trem supersônico.
  • Segurança. A sensação de segurança é total. Um possível razão seja o número de extensivo de câmeras de segurança por todos os cantos da cidade e uso controverso de tecnologias de reconhecimento facial.
  • Meio ambiente. O país tem buscando soluções para o combate a poluição do ar oriundos da forte industrialização através do desenvolvimento de tecnologia. Porém chama a atenção a quantidade de espaços verdes e parques no meio da cidade. Além de tornar as cidade mais agradáveis, a campanha também tem contribuído deixar o planeta mais verde.
  • Robótica. Quando menos se espera, é possível ser surpreendido pela tecnologia. No hotel Park Plaza Science Park, se você fizer um pedido a recepção, provavelmente será atendido por um robô que fará a entrega pra você.
  • Tecnologia e comunicação. Talvez o primeiro impacto a ser sentido ao chegar na China é o não acesso às ferramentas de comunicação e redes sociais que utilizamos diariamente (Google, gmail, facebook/instagram, twitter, uber, whatsapp, etc).  Isso denota um país que é aberto para receber conhecimento e tecnologia externo, porém que promove forte reserva de mercado.

Ao andar por Beijing é possível observar um misto de tradição com modernidade. Surpreende a velocidade com que a transformação do país ocorreu, o que nos faz refletir sobre lições que podem e devem ser tiradas para o desenvolvimento do Brasil. Apesar do nosso ambiente de inovação ter melhorado nos últimos anos a partir de uma maior consciência sobre a importância da inovação, do crescente interesse em empreendedorismo e de um nascente mercado venture capital, alguns elementos do ecossistema brasileiro ainda precisam ser aperfeiçoados. Um exemplo são os “links” entre ciência, tecnologia e indústria e um melhor balanço entre pesquisa básica e aplicada. Se na China, a maior parte do investimento em P&D se concentra em pesquisa experimental e aplicada nas empresas (necessárias para a construção de capacidades tecnológicas da indústria), no Brasil, P&D ainda é quase que exclusividade de poucas grandes empresas ou da Universidade cujo foco é, primordialmente, pesquisa básica (não necessariamente atrelados à resolução de problemas imediatos das empresas). Não é o caso de escolher entre uma coisa ou outra, mas de encontrar um balanceamento dessas atividades e seu financiamento ao longo do ciclo completo de inovação.

Referências

Abramovitz, M. (1986). Catching up, forging ahead, and falling behind. The Journal of Economic History, 46(2), 385-406.

Appelbaum, R. P., Cao, C., Han, X., Parker, R., & Simon, D. (2018). Innovation in China: challenging the global science and technology system. John Wiley & Sons.

Dutta, S. (2012). The global innovation index 2012. Stronger innovation linkages for global.

Dutta, S., Reynoso, R. E., Garanasvili, A., Saxena, K., Lanvin, B., Wunsch-Vincent, S., … & Guadagno, F. (2018). The global innovation index 2018: Energizing the World with Innovation. Global Innovation Index 2018, 1.

Kim, L. (1997). Imitation to innovation: The dynamics of Korea’s technological learning. Harvard Business Press.

Lee, K., & Lim, C. (2001). Technological regimes, catching-up and leapfrogging: findings from the Korean industries. Research policy, 30(3), 459-483.

Normile, D. (2018). China narrows US lead in R&D spending. Science. 362(6412), 276.

Pisano, G. P., & Shih, W. C. (2012). Producing prosperity: Why America needs a manufacturing renaissance. Harvard Business Press.

Schumpeter, J. A. (1912). 1934. The theory of economic development.

Yuqing, X. I. N. G. (2006). Why is China so attractive for FDI? The role of exchange rates. China Economic Review, 17(2), 198-209.

Yip, G. S., & McKern, B. (2016). China’s next strategic advantage: From imitation to innovation. MIT Press.

Can China become a scientific superpower?. The Economist. Available at: https://www.economist.com/science-and-technology/2019/01/12/can-china-become-a-scientific-superpower


André Cherubini Alves

Centro de Inovação FGV EAESP

andre.cherubini@fgv.br

Artigo publicado com autorização do autor.
Publicado originalmente na Newsletter da EA Alumni UFRGS.
https://www.ufrgs.br/alumni-ea/?p=360&fbclid=IwAR0XhHmdox6913ntRVDLxS7YL1bPxTmdnXBgRYF-m1uFxvT1aYlGsOORZuM

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